sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Claro que ansiedade...

Mais poucas horas para os 14 anos...
Mais muitas horas para o fim do mundo...
Ansiedade ? Claro que não...

Há uma ordem mística que governa o universo...

Que esse mês seja melhor, que esse mês eu faça o que tinha que ter feito nos outros meses, que esse mês os ventos soprem a favor... Blá, blá, blá...

Esse é sempre o mesmo discurso quando entramos em um novo mês, ou um novo ano.
Esse mês eu começo a dieta. Esse mês eu entro na academia. Esse mês eu vou falar com ela...
E a gente sempre deixa pro próximo mês o que a gente podia ter feito hoje, agora, nesse instante. 
Pra que esperar ? A vida não é tão longo, não somos eternos.
Se queremos temos que fazer agora, pra não deixar pra lá.
E aí ? E aí se o mundo acabar em 2012 ? Será que a gente vai se arrepender de não ter feito um monte de coisa ? Dá tempo de concertar, e começar agora para fazer um novo fim. Basta só a gente querer. 

"Se eu quero mais energia de vida, eu ofereço energia primeiro."

Adolescência: a porta da vida ?

Às vezes, quando olhamos à nossa volta, cercados de amigos queridos, temos a sensação de que aquele momento é eterno e que nada poderá mudar o rumo de nossas vidas. Mas será mesmo ? O que será que a vida prepara para cada um de nós ?

Porta do Colégio

Passando pela porta de um colégio, me veio uma sensação nítida de que aquilo era a porta da própria vida. Banal, direis. Mas a sensação era tocante. Por isto, parei, como se precisasse ver melhor o que via e previa. 

Primeiro há uma diferença de clima entre aquele bando de adolescentes espalhados pela calçada, sentados sobre carros, em torno de carrocinhas de doces e refrigerantes, e aqueles que transitam pela rua. Não é só o uniforme. Não é só a idade. É toda uma atmosfera, como se estivessem ainda dentro de uma redoma ou aquário, numa bolha, resguardados do mundo. Talvez não estejam. Vários já sofreram a pancada da separação dos pais. Aprenderam que a vida é também um exercício de separação. [...] Mas há uma sensação de pureza angelical misturada com palpitação sexual, que se exibe nos gestos sedutores dos adolescentes. Ouvem-se gritos e risos cruzando a rua. Aqui e ali um casal de colegiais, abraçados, completamente dedicados ao beijo. Beijar em público: um dos ritos de quem assume o corpo e a idade. Treino para beijar o namorado na frente dos pais e da vida, como quem diz: também tenho desejos, veja como sei deslizar carícias.

Onde estarão esses meninos e meninas dentro de dez ou vinte anos ?

Aquele ali, moreno, de cabelos longos corridos, que parece gostar de esportes, vai se interessar pela informática ou economia; aquela de cabelos loiros e crespos vai ser dona de butique; aquela morena de cabelos lisos quer ser médica; a gorduchinha vai acabar casando com um gerente de multinacional; aquela esguia, meio bailarina, achará um diplomata. Algumas estudarão Letras, se casarão, largarão tudo e passarão parte do dia levando filhos à praia e praça e pegando-os de novo à tardinha no colégio. Sim, aquela quer ser professora de ginástica. Mas nem todos têm certeza sobre o que serão. Na hora do vestibular resolvem. Têm tempo. É isso. Têm tempo. Estão na porta da vida e podem brincar. 

A turma já perdeu um colega num desastre de carro. É terrível, mas provavelmente um outro ficará pelas rodovias. Aquele que vai tocar rock vários anos até arranjar um emprego em repartição pública. [...] Tão desinibido aquele, acabará líder comunitário e talvez político. Daqui a dez anos os outros dirão: ele sempre teve jeito, não lembra aquela mania de reunião e diretório ? [...]

Se fosse haver alguma ditadura no futuro, aquela ali seria guerrilheiro. Mas esta hipótese deve ser descartada. 

Quem estará naquele avião acidentado ? Quem construirá uma linda mansão e um dia convidará a todos da turma para uma grande festa rememorativa ? [...] Aquela ali descobrirá os textos de Clarice Lispector e isto será uma iluminação para toda a vida. Quantos aparecerão na primeira na primeira página do jornal ? Qual será o tranquilo comerciante e quem representará o país na ONU ?

Estou olhando aquele bando de adolescentes com evidente ternura. Pudesse passava a mão nos seus cabelos e contava-lhes as últimas estórias da carochinha antes que o lobo feroz os assaltasse na esquina. Pudesse lhes diria daqui: aproveitem enquanto estão no aquário, na redoma, enquanto estão na porta da vida e do colégio. O destino também passa por aí. E a gente pode às vezes modificá-lo.

(Affonso Romano de Sant'anna . Porta de colégio e outras crônicas. São Paulo: Ática, 1999. p. 9-11)